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As origens do Yoga (parte 3) 

Por Geeta S. Iyengar

Trecho do Yoga Rahasya. Tradução livre de Maurício Frighetto

O skola que nós recitamos ou as preces que oferecemos todos os dias antes de iniciar a prática de yoga, remete ao ídolo Patanjali e seu trabalho.

O significado da imagem de Patanjali

Patanjali, sendo a encarnação de Adisesa, é metade homem, metade cobra, com mãos postas em anjali mudra (namaskar mudra), e com o chakra (disco) na mão direita, assim como shanka (concha) na mão esquerda. Apesar de a espada não ser encontrada no ídolo, está amarrada à cintura e mantida em uma bainha – encontrei a figura em um livro chamado “Religião na Terra”. Há um templo de Sesavatara em Koregaon (Maharashtra) em que o ídolo é similar ao Senhor Patanjali. 

No ídolo, as três espirais abaixo do umbigo representam os três gunas da prakrti: sattva, rajas e tamas – e o estado de gunahita ou nistraigunyata solicita ao sadhaka se tornar um gunatitan (Gunavait-rsnyam 1,16; Gunanam pratiprasavah 4,34). 

Novamente, as três espirais indicam a pranava “AUM”, um símbolo que transmite o conceito de DEUS como Criador, Organizador e Destruidor. Isso significa que ele é onipresente, onisciente e onipotente. O símbolo ॐ (AUM) é composto por três sílabas A, U e M com uma lua crescente e um ponto no topo. As três espirais completas simbolizam as sílabas, e a metade da volta, o crescente. 

Patanjali chama nossa atenção a três tipos de aflições (tapa) chamadas adhyatmic, adhibhautic e adhidaivic, que são conquistadas ao seguir o caminho do yoga.

É possível que as três espirais indiquem que ele é mestre do ayurveda, gramática e yoga – porque escreveu sobre o ayurveda no Charaka samhita, sobre gramática no Mahabhasya e sobre yoga no Yoga sutra. A meia espiral indica a conquista do estado de kaivalya pela realização de sarira suddhi, vak suddhi e citta suddhi (purificação do corpo, da fala e da consciência).

A concha na mão esquerda significa o estado de alerta, atenção e prontidão para enfrentar os obstáculos e aflições que são inevitáveis na prática de yoga. Nos dias remotos, a concha era soprada como um aviso para se preparar para enfrentar um desastre ou calamidade,  como é feito hoje em dia com sirenes. É também um símbolo de jnana. O disco na mão direita significa a imediata destruição das más ações e é um símbolo de proteção do certo contra o errado. A espada guardada na bainha indica a destruição de avidya (ignorância) e o corte da arrogância, que é o capuz do ego ou orgulho ou senso de “eu” – os principais obstáculos que cobrem o ser puro. 

Essas três armas ou meios indicam a contenção das flutuações mentais (1,2), a remoção de obstáculos (1,29) e a erradicação de aflições (4, 30) através do método de yoga. 

O capuz acima da cabeça assegura a proteção de Adisesa, desde que nos rendamos ao Senhor (Isvarapranidhana 1,23), que é representado no atmanjali mudra (mãos juntas em namaskarar).

O Bhagavatam narra a história do nascimento do Senhor Krishna. Vasudeva, o pai do Senhor Krishna, a fim de protegê-lo do demônio rei Kansa, levou o pequeno de Mathura para Gokul quando estava chovendo e com inundação. Adisesa protegeu os dois segurando seu capuz sobre eles, como se fosse um guarda chuva. E abriu caminho no meio de um rio, como uma ponte, para que Vasudeva passasse facilmente. 

Patanjali indica, com seu capuz, que é nosso protetor se nos tornamos destruidores do mal escondidos dentro de nós pela espada do yoga, nos purificando com o yoga sadhana e nos rendendo a Deus (Isvara).

A cobra de mil cabeças (sahasra sirasan svetam) indica que Patanjali nos guia em mil caminhos, isto é, nos mostrando os diversos métodos de prática e abordagem para encontrar a alma interna através de multi facetados esforços.

A cobra indica o movimento do réptil, isto é, a continuidade do sadhana não pode terminar até se alcançar o objetivo – a alma. O umbigo abaixo, ele sendo metade homem, indica a individualidade, uma vez que tem sido dotado de inteligência para usar nos seus próprios esforços para alcançar o objetivo. O Senhor Patanjali indiretamente faz um movimento como a serpente (rápido, intensivo) no caminho do Yoga para se tornar tivrasamvegin (1,21).

Se entender o significado, de agora em diante ofereça suas preces com total devoção para o Senhor Patanjali, sabendo o que quer dizer com “tajjapastadarthabhavanam” (1,28). O calibre intelectual, o aspecto devocional e os muitos esforços em abhyasa tem que estar em perfeito equilíbrio na prática do yoga.   

Confira os outros trechos:

As origens do Yoga (parte 1)

As origens do Yoga (parte 2)