Yoga e Brahmacharya

Por B.K.S. Iyengar

Artigo da revista Yoga Rahasya, que reúne textos publicados entre 1994 e 1996. Tradução livre de Maurício Frighetto. 

Nossa sociedade foi dividida em quatro classes, de acordo com as qualidades (gunas) do homem, que mais tarde se tornariam o sistema de castas. As quatro classes são brahmin (sacerdotes), kshatrya (guerreiros), vaisya (comerciantes) e sudra (trabalhadores). Essas divisões existem inconscientemente em todas vocações, embora pareçam estar desaparecidas.

Mesmo na disciplina do Yoga, o iniciante precisa trabalhar pesado e suar para aprender. Depois, passa a fazer demonstrações, a ensinar e a ganhar dinheiro com o yoga – o que corresponde ao caráter da classe mercantil. Em seguida, compete com seus colegas ou ensina com orgulho e superioridade, que nada mais é do que o caráter militar do sadhaka. Essa é a qualidade de kshatrya. Finalmente, o aprendiz ou o professor explora o campo do Yoga para beber seu néctar em forma de realização espiritual, que é a qualidade de brahmin. Esse é o fervor religioso do Yoga e quem age com este sentimento torna-se um brahmin no yoga sadhana.             

Como a sociedade, a vida do homem também é dividida em quatro ordens religiosas conhecidas como brahmacharya (formação educacional e religiosa), gruhastya (vida de chefe de família), vanaprastha (preparação para uma vida sem apego enquanto chefe de família) e sanyasa (desapego dos assuntos do mundo e apego ao serviço ao Senhor).  

A duração da vida de 100 anos foi dividida em quatro partes de 25 anos, onde, em cada uma delas, aconselha-se a seguir os quatro ashrams para completar os quatro objetivos da vida. Eles são dharma (ciência da ética, social e deveres religiosos), artha (aquisição de saúde), khama (prazeres da vida) e moksha (liberdade ou beatitude). 

Moksha não é possível sem dharma. Artha – ou aquisição de saúde – é para se tornar livre de uma vida parasitária. Isso não significa acumular saúde, mas ganhar e manter um corpo saudável e a mente livre de desejos. Caso contrário, uma restrição corporal inadequada se tornará fértil para doenças e preocupações. Não apenas se adquire dinheiro, mas também um parceiro para levar a vida de um chefe de família nesta etapa. Esse segundo estágio dá a chance de experienciar o amor humano e a felicidade e preparar a mente para o amor divino através da amizade e compaixão. Esse contato ajuda a desenvolver a universalidade, de modo a perceber o amor divino. Nunca é permitido fugir das responsabilidades e da educação dos filhos e dos companheiros. Portanto, nunca há nenhuma objeção em relação ao casamento e à paternidade – eles não são considerados barreiras ao conhecimento do amor divino, felicidade e união com a Alma Suprema.          

Kama é ter o prazer da vida, que depende amplamente de um corpo saudável e de uma mente equilibrada e harmoniosa. O corpo tem que ser tratado como um santuário da Alma, já que é a morada do homem. A prática de asanas, pranayamas e dhyana purifica o corpo, estabiliza a mente e traz clareza à inteligência. Essa é a razão porque os sábios dizem que o corpo é o arco, o asana a flecha e o alvo é o centro do ser (Purusa).

Moksha significa liberdade da escravidão dos prazeres mundanos. É libertação, emancipação, liberdade e beatitude. Essa libertação somente é possível ao tornar-se livre das aflições, como doença, abatimento, dúvida, descuido, preguiça física, ilusão, falha ao manter a força de vontade, negligência na atenção, miséria, desespero, tremor do corpo e respiração ofegante. Também é a liberdade da pobreza, ignorância e orgulho. A emancipação entra e a beleza divina brilha somente quando se é livre de todas aflições. Isso é moksha.    

Nesse estágio percebe-se que poder, prazer, saúde e conhecimento são temporários e não trazem liberdade ou solidão (kevalavastha). Aprende-se a ir além das qualidade de tamas, rajas e sattva e a libertar-se dos objetivos da vida para se tornar um rei entre os homens. Ele é gunahitan (livre das qualidades da natureza). Esse é o caminho do sabor da vida que vale a pena tentar e viver.

Brahmacharya é definido como celibato, estudo religioso e castidade. Todos os textos de Yoga dizem que a perda do sêmen leva à morte e sua retenção, à vida. O corpo do yogues desenvolve um aroma doce pela preservação do sêmen. Hatha Yoga Pradipika afirma que não há medo da morte enquanto o sêmen é retido. 

Patanjali também enfatiza a continência do corpo, da linguagem e da mente. Ele diz que se estabelece valor e vigor, força e poder, coragem, força moral, energia e o elixir da vida ao preservar o sêmen. Consequentemente, sua interdição deve ser preservada por um esforço concentrado de vontade.

Isso não significa que a filosofia do Yoga destina-se apenas para celibatários. 

Todos os Smritis (Códigos de Direito) recomendam o casamento. Quase todos os yogues e sábios da Índia antiga eram homens casados com famílias. O sábio Vasista teve uma centena de filhos e, mesmo assim, era chamado de brahmacharya porque não se entregou ao sexo apenas por prazer. Antigamente, o namoro acontecia somente sob a conjunção de estrelas auspiciosas, em um dia e horário que não ocorria nenhuma outra vez no ano. É por isso que eles eram chamados de bramahcharis, embora fossem casados. 

Brahmacharya pode ser observado mesmo por homens e mulheres casados, desde que não abusem, mas controlem o namoro. Este conceito de brahmacharya não é de negação ou austeridade forçada e proibição. 

De acordo com Sri Adi Shankaracharya, um brahmachari é um homem absorto nos estudos da sagrada tradição védica, constantemente se movendo em direção a Brahma ( O Espírito Universal) e sabendo que Brahma existe em tudo. Aquele que está em contato com o verdadeiro centro do ser é brahmachari. Aquele que vê divindade em tudo consequentemente torna-se um verdadeiro brahmachari.

Um homem casado que ama sua parceira com sua cabeça e seu coração pode levar uma vida satisfeita de um bramahchari em vez do moderno brahmachari que reivindica ser um celibatário mas lança seus olhos maus para satisfação sensual. 

Hoje em dia, em nome da liberdade, todos se comportam como se fossem libertados. Uma vida tão liberada não é liberdade social. Os cinco princípios do yama são a ética social, e a liberdade social não é uma reação contra a ética social. Cada indivíduo deve seguir certas disciplinas da sociedade. Portanto, a liberdade de se comportar como se quer não é liberdade real, mas é libertação sem discriminação.

Liberdade com disciplina é a verdadeira liberdade. 

O Senhor Krishna diz no Bhagavad Gita que um yogue segue o brahmacharya pela moderação no sono, na alimentação e na regulação do namoro. 

Esse é o caminho da vida do yogue. 

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