Savasana e o tempo

6º Punyatithi Guruji BKS Iyengar

Punyatithi é o dia sagrado que se celebra a morte de uma pessoa. No dia 20 de Agosto de 2014, Guruji Iyengar fez a sua passagem. Somos eternamente gratos pelos seus ensinamentos, que se mantém tão vivos no presente.

 

Por B.K.S. Iyengar 

Trecho do livro Luz na Vida

Muitos querem saber por que, no meu livro A luz sobre o Yoga, refiro-me ao Savasana (postura do cadáver) como a posição mais difícil. Para a maioria das pessoas, a postura do cadáver é uma recompensa agradável depois de uma aula de ioga cansativa, em que experimentam um relaxamento tórpido ou vibrante e, em certa medida, luminoso. Luminoso aqui significa satvico, ou seja, consciente e passivo. Tórpido significa tamásico, e, como muitos alunos chegam à aula depois de um dia duro de trabalho, nunca me opus a isso. É natural que aconteça, e muitas vezes os roncos compõem a música que encerra uma aula repleta de alunos – entre eles os já veteranos. Pode ser que eu seja muito exigente nas posturas em pé, mas creio que jamais acordei um aluno durante o Savasana, exceto talvez na hora de mandá-lo para casa. Mas o propósito do Savasana não é fazer adormecer. Se fosse assim, não seria uma posição difícil.

O objetivo do Savasana é fazer soltar, do mesmo modo que, como mencionei há pouco, uma cobra solta sua pele para ressurgir lustrosa e fulgurante em suas cores novas. Temos multa peles, camadas, pensamentos, preconceitos, idéias preconcebidas, memórias e projetos para o futuro. O Savasana consiste soltar todas essas peles para que possamos ver como é magnífica e lustrosa, serena e consciente a bela serpente irisada reside dentro de nós. E, a exemplo da serpente, nos deitamos no chão, deixando a superfície do corpo o máximo possível em contato com ele. 

Ora, se o Savasana tem que ver com relaxamento, o que nos impede de relaxar? A tensão. A tensão resulta de estarmos agarrados a vida e, assim, sob o controle dos milhares de fios invisíveis que nos prendem ao mundo conhecido, ao “eu” conhecido, ao ambiente conhecido em que ele atua. São os fios que ligam o “eu” ao seu ambiente que nos proporcionam o senso de identidade. Meus alunos, quando se deitam no chão ao término de uma aula puxada, ainda estão identificados com seu papel de marido ou esposa, ainda preocupados com as compras que terão de fazer a caminho de casa, com os pais que estão à sua espera, com os filhos que precisam de ajuda com a lição de casa. Eles ficam cansados porque mantêm a consciência de que são executivos que tiveram um dia extenuante no trabalho. Talvez o dia tenha transcorrido bem; talvez não. Meus alunos são todos filhos, filhas, maridos, esposas, trabalhadores, pais, homens ou mulheres. Os milhares de fios da identidade os amarram ao solo quando se deitam em Savasana, como Gulliver aprisionado pelos fios dos minúsculos liliputianos.

O Savasana utiliza técnicas de relaxamento para cortar esses fios. O resultado disso não é, como na meditação, a liberdade, mas a perda da identidade. Não digo perda da falsa identidade porque, no mundo em que operam, essas identidades são reais. No entanto, de um ponto de vista mais amplo, elas são irreais. Mesmo o fato de ser homem ou mulher é uma identidade que pode ser derrubada.

Relaxar é interromper a tensão. Interromper a tensão é cortar os fios que nos prendem à identidade. Perder a identidade é descobrir quem não somos. Não disse antes que a inteligência é o bisturi que extirpa o que é irreal para deixar somente a verdade? Não é verdade que, quando está deitado em Savasana, numa posição harmoniosa e equilibrada, você se sente presente e sem forma? Quando se sente presente e sem forma, não sente a ausência de uma identidade específica? Você está ali, mas quem está ali? Ninguém. Só a percepção presente, sem movimento nem tempo, está ali. A percepção presente é a extinção do tempo na consciência humana.

Esse é o problema com o tempo. Só podemos concebê-lo em relação ao espaço, como um rio fluindo ou um pedaço de cordão. Dividimos o cordão em décadas, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos. Essas são as extensões do tempo, e, seja o tempo o que for, não é justo nem correto tratá-lo como uma dimensão do espaço, algo a ser medido por um comprimento, como uma parede ou uma estante. Outro problema é que consideramos o tempo algo vazio, destituído de significado, como um balde sem nada, até que o enchamos com alguma coisa – nossas atividades, por exemplo. Seja o tempo o que for, devemos compreendê-lo plenamente em sua essência, em sua natureza, como a flor que cresce no deserto sem precisar de nenhum observador para realizar o potencial da própria beleza. Se você tentar imaginar o tempo sem usar conceitos espaciais, perceberá que é extremamente difícil. Por isso digo que não integramos ainda o tempo a nossa consciência, como fizemos com as três dimensões do espaço. O poder da ciência é a prova de nossa capacidade de nos projetar no espaço. Mas espaço sem tempo é como músculo sem cérebro.

Para nós, o tempo parece mover-se, fluir, ter duração, extensão – portanto, ser espacial. Em outras palavras, estamos presos no aparente movimento do tempo. Contudo, todos os caminhos espirituais falam da importância primordial de viver no presente. O que é o momento presente? Um segundo? Ou algo menor? Pela lógica, o presente só pode ser uma unidade de tempo infinitamente pequena, um segundo dividido pelo infinito. Isso não existe. Como extensão de tempo, o presente simplesmente não existe. De que forma, então, viver no presente? É um paradoxo.

Temos de encontrar o presente por outros meios. A única maneira de fazer isso é dissociá-lo do passado e do futuro. Desse modo, o tempo não pode fluir. Ele literalmente pára, como acontece na meditação e no Samadhi. O Savasana é a chave para entender isso. Nossa identidade e afiliação nos ligam ao passado e ao futuro. Nada na vida nos liga ao presente, exceto o estado de ser. A ação acontece no decorrer do tempo; ela tem duração. Ser transcende o tempo. O estado de ser só é alcançado quando são cortados todos os fios que ligam ao passado ou ao futuro. Nasci homem; serei homem amanhã. Posso agora, no Savasana, deixar de lado a identidade sexual que me liga ao passado e ao futuro? Posso existir numa percepção de tempo distinta, na qual passado e futuro não se impõem ao presente nem o maculam? Savasana é ser sem ter sido, ser sem vir a ser. E ser sem ninguém que é. Não surpreende que seja o asana mais difícil, a porta para a meditação não dualista e para a fusão cósmica do samadhi.

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