A yoga como um meio para dissolver o ego (parte 2)

Para nos ajudar a compreender o que é o ego e como podemos dissolvê-lo, os professores Camila de Lucca e Pedro Pessoa estão nos apresentando, durante as aulas de yoga on-line, a história sobre um rei insensível. A cada nova aula, um novo episódio nos é contado. A primeira parte da história já está registrada em texto que publicamos anteriormente. Se você ainda não leu, é só clicar aqui. Acompanhe agora os desdobramentos da aventura do rei:

Após ter sido salvo pelo macaco de olhos brilhantes, o rei insensível foi tomado por um sentimento de agradecimento. Porém, a sensação não durou muito – até porque os velhos hábitos retrocedem, mas não morrem tão facilmente. Rapidamente, ele retomou sua pose de pompa e começou a falar em um tom solene: “Sou o poderoso rei deste país e queria agradecer-lhe por ter…” Mas antes que pudesse completar a frase, teve que parar pois via diante de si uma cena pra lá de inusitada: o macaco rolava no chão, de um lado para o outro, de tanto rir.  

Recuperado do ataque de riso, o macaco falou ao rei insensível: “Como você é pouco inteligente! Você ainda não percebeu que é um mero prisioneiro?”. O rei insensível ficou furioso, já pensava até em como punir aquela criatura, mas o macaco continuou: “Você não percebe que todos, sem exceção, são prisioneiros desse rei ao qual eu sirvo?”

No auge da sua fúria, o rei insensível perguntou: “E quem é este rei que eu nunca ouvi falar?” O macaco respondeu: “É o rei Karma, diante do qual nobres e plebeus tremem, diante do qual todos se curvam.” O rei insensível não se conformava: “Mas como é possível!? Se ele é tão importante, como nunca ouvi falar dele?”. O macaco então falou: “Pois esta é a primeira razão pela qual você é seu prisioneiro. Quanto mais você o ignora, mais você se torna seu prisioneiro.” 

O rei insensível pensou que tudo aquilo era uma grande bobagem. Mas o macaco prosseguiu: “A primeira lei fundamental estabelecida pelo rei Karma é a seguinte: ‘você colhe aquilo que planta.’” 

“Tudo aquilo que nós fazemos”, explicou o professor Pedro em um das aulas, “desde as coisas mais simples, está conectado com aquilo que os outros fazem e experimentam a cada momento. Significa que se você fizer um ato qualquer, aqui, de uma forma quase que inexplicável, você causa um efeito em um lugar próximo ou mesmo distante. Quando nós praticamos yoga, estamos criando uma condição que transforma o desenrolar das coisas ao longo dos nossos dias, das semanas, dos meses, dos anos, da vida.” 

O rei insensível não aguentava mais ouvir aquele macaco e tentou intervir. Alegou que era um soberano de sangue azul, com antepassados nobres e que tinha um poder absoluto. “Faço o que quero, quando quero e não devo satisfação à ninguém!”  

O macaco olhou no fundo dos seus olhos e, com uma profunda tristeza, disse: “Óh humano infeliz! Até quando vai durar sua falta de visão? Não vê que o poder do rei Karma está em todas as partes? Todos os seres humanos, por influência deste rei, estão ligados entre si, formando um único e grande tecido. Você não vê que é impossível isolar o destino de alguém do resto de seus semelhantes? Esta é segunda lei do rei karma, a lei do efeito dominó.” O rei insensível escutava calado, já demonstrando algum esforço para compreender o que estava sendo dito. 

A professora Camila explica que esse macaco representa a parte de nós que tenta nos salvar desta armadilha em que o “rei insensível” – nosso ego – nos coloca. O macaco é essa força que vem do nosso coração. “Neste momento do savasana”, disse ela ao final de uma das aulas, “desapega, solta qualquer parte que esteja tensa, rígida. Quando o rei invisível está no comando ficamos num estado de tensão. Esse rei insensível só pensa em si. Mas ao praticar yoga, nós podemos dissolver, transformar este ego e fazer com que ele amadureça, que passe a acreditar que exista algo além dele.”

Enquanto nos orientava a relaxar profundamente o corpo, a nos entregar completamente, dizia: “Neste gesto, nosso coração pode falar, pode nos conduzir. Quando a gente passa a escutar esse mestre que habita dentro de nós, existe uma transformação interna e isso também influencia as pessoas ao nosso redor. Quando nossos olhos se abrem, conseguimos enxergar o que as pessoas ao nosso redor precisam. Estamos todos interligados e formamos uma grande rede. Quando nos transformamos, ajudamos a transformar o mundo lá fora. Nós realmente podemos fazer muito quando nos transformamos internamente.”

Texto Maurício Frighetto

Edição Daniela Caniçali