A essência do homem

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Por B.I. Taraporewala

Artigo da revista Yoga Rahasya, que reúne textos publicados entre 1994 e 1996. Tradução livre de Maurício Frighetto. 

Qual é a essência do homem? 

Não é a saúde, a força, a graça e a beleza da forma humana, pois o corpo está sujeito a doenças, deterioração e morte. 

Também não é a mente, que muda como o tempo ao redor de um lago nas altas montanhas, cujas águas se tornam agitadas, lisas ou calmas ao refletirem a mudança dos ventos. Os reflexos de diversos humores e emoções podem transformar alguém em um grande ator, mas não necessariamente em um indivíduo equilibrado, que mantém a equanimidade em condições felizes e adversas.

Não são seus poderes intelectuais, nem seu raciocínio, nem seu desejo, nem seu julgamento, nem seu ego, nem sua personalidade total. 

A essência do homem é um poder indefinível

Este poder é misterioso e permeia tudo no cosmos. Você sente esse poder embora não o veja. Esse intrigante espírito ou poder é Deus. Esta é a centelha misteriosa no Homem – uma porção da chama universal que mantém todas as coisas criadas e todos os seres em constante mutação, embora ela mesma nunca mude. Somos nós que mudamos. Aquele espírito ou poder nunca muda. 

Como alguém alcança este poder misterioso?

Aqui nos deparamos com um paradoxo. Você se perde e o espírito o encontrará e o ungirá. O espírito não vai escolher os fracos ou os intelectuais. Todos nós somos pregados na cruz do tempo e do espaço e não podemos escapar do eterno “aqui e agora”. 

Os sábios dizem: “Esqueça de si mesmo”, “Esvazie-se”, “Entregue-se ao espírito em corpo, emoções e sentimentos da sua mente”; “Entregue-se e você estará naquele misterioso poder”. É apenas um recipiente vazio que pode ser preenchido. Quando você se esvazia de toda a confusão é que o espírito entra e então você se sentirá realizado.

Você então dirá como os sábios do Upanishads: “Poornam Adah, Pornam Idam”. Quando se está inteiro e completo, então se está com esta força. 

É o poder misterioso que escolhe o vaso potencial

O sempre venerável sábio Patanjali dá várias dicas no Samadhi-pada dos Yoga Sutras. Ele recomenda Maitri (Amizade) com o bom, Karuna (Simpatia) para com as pessoas e criaturas menos afortunadas, Mudita (Felicidade) pelo bem-estar dos outros e Upeksa (indiferença) para com todos os seres, por mais questionável que suas condutas possas parecer antes de estudá-las.

Patanjali também sugere que é preciso estar livre da ligação com todas as coisa – felicidade e sofrimento, amor e ódio –, uma vez que são transitórias e efêmeras e passarão.  

Esses métodos sugeridos por Patanjali, entre outros, requerem pessoas integradas e disciplinadas que possam seguir os preceitos do sábio. Mas como um homem médio, um homem comum que viaja em um ônibus de transporte público, adapta-se para desfrutar a liberdade de espírito?

Como alguém se esquece de si mesmo? Como alguém se esvazia?

O sábio Patanjali também recomenda: “Yathabhimata dhyanat va”– “Absorva-se em qualquer atividade que lhe interesse”. Pode ser sua profissão, vocação, arte ou hobby. Esteja absorvido em sua escrita se você é escritor, de modo que você e seu trabalho se tornem fundidos como se fossem um. Você pode converter um depósito de lixo em algo belo com seu próprio esforço se você for um jardineiro. Seus olhos, mãos, cinzel e martelo podem esculpir uma grande pedra e transformá-la em um duradouro monumento se você for um escultor. 

Seu arco, sua corda, sua flecha e o alvo podem se tornar fundidos em um se você for um arqueiro. Você pode aliviar o sofrimento dos outros estando completamente absorvido na sua atividade escolhida se você for um médico, advogado ou arquiteto. É a total consciência sobre sua atividade escolhida que o faz se esquecer de si mesmo. Essa consciência é afiada pela prática constante de asanas e pranayamas. 

O remédio soberano mencionado por Patanjali para escapar da dor e da tristeza é “Eka tatva abhyasa” – “estudo persistente, incansável e de longa duração, com a máxima devoção do único elemento que permeia o universo”. Kabir, um mestre tecelão de Varanasi, tornou-se um grande poeta místico com seu devotado estudo, embora suas origens fossem desconhecidas. Seus versos ainda vivem nas línguas de milhões. Ele teceu os tecidos que os homens de ferro tocaram e se transformaram pela alquimia de Kabir em homens de ouro.     

Esse estudo persistente, incansável e de longa duração, aliado a uma grande devoção ao elemento essencial, transformou um jovem advogado de origem indiana na África do Sul em um líder de homens de sua geração e mudou o curso da história de nossos tempos. Ele soprou vida na poeira do país e transformou os homens em seres corajosos, determinados e repletos de um propósito: libertar-se do domínio estrangeiro. Ele se tornou, nas palavras do ganhador do Nobel Rabindranath Tagore, “Jana Gana Mana Adhi Nayaka” – “líder supremo das mentes da humanidade”. O advogado Mohandas Karamchand Gandhi, que havia sido expulso pelo Supremo Tribunal de Bombaim por atividades consideradas traidoras, tornara-se Mahatma. Ele está tristemente esquecido, mas a chama que ele acendeu ainda ilumina a escuridão ao nosso redor.

Em uma noite escura e tempestuosa, o som do trovão e o relâmpago expõem a forma oculta da arquitetura criando um efeito son-et-lumiere, que revela a beleza da estrutura. Na noite escura da alma, a palavra do Guru é como um trovão, e a luz deslumbrante do espírito ilumina o universo localizado no próprio coração. O sujeito, então, torna-se totalmente desperto. Ele surge. Participa do melhor. Ilumina-se. 

Esta é a essência do homem!!

Isso é Yoga Rahasya, o mistério do yoga!!